urban cluster
Urban Cluster
Blocos de prédios conectados por passarelas. Centro de Curitiba-PR, imediações da Rua Cruz Machado.

Uma só palavra

– Ai, querido. Só mais uma vez. A palavra que eu tanto gosto. Diga.

– ?

– Uma doce palavrinha.

– Ah, minha cadelinha querida. Sua putinha safada. Cabriti…

– Ei, pára. Não é por aí.

– Mas o que…

– Se você já esqueceu: Amor. Eu te amo. Só isso.

drying in the breeze
Drying in the breeze
Calcinhas secam na brisa de sábado nas Mercês, Curitiba-PR. Pouco antes do anoitecer.

Os noivos

– Foi um triste casamento. Os noivos decerto menores de 18 anos. Pareciam dois meninos perdidos. Dois lindos meninos.

Para surpresa geral, a noiva chega chorando. Entra na igreja chorando. E chora até o fim da cerimônia.

Quando os dois caminham para o altar, à medida que passam, todos entendem o pranto da garota.

Ele tinha raspado a cabeça. E atrás, na sobra da cabeleira, estão recortadas quatro letras: R-O-S-A,

– E daí? O nome da noiva. Um belo gesto de amor.

– Só que o nome da noiva era outro.

serro azul
Serro Azul
Edifícios na Rua Barão do Serro Azul, centro de Curitiba-PR, vistos das imediações.

Diante do túmulo

Diante do túmulo do velho bem-querido. Cabeça trêmula, a velhinha:

– E você? Por que ainda não me enterrou?

Silêncio do velho. Ela, zangada:

– Mas o que você está esperando?

(Trechos do livro Arara Bêbada, de Dalton Trevisan)

Photos: Mathieu Bertrand Struck
creative-commons_iconLicensed under CC-BY-NC-ND 2.0

(Post originalmente publicado em Hackeando Catatau)

Dive (by Kaká)
Dive, by Kaká

Para abrir a rubrica Tecnologia de Mare Nectaris, escolheu-se um ensaio de Carlos O. Quandt, professor dos programas de Pós-Graduação em Administração e Gestão Urbana e coordenador do Grupo de Pesquisa em Gestão do Conhecimento e Inovação da PUCPR.

O ensaio em questão bem ilustra a importância de processos sustentáveis de desenvolvimento tecnológico, centrados especialmente na confiança e coesão entre os agentes envolvidos, analogamente ao que é demonstrado por Alain Peyrefitte em A Sociedade de Confiança: Ensaio sobre as origens e a natureza do desenvolvimento. Esta última obra é fundamental para compreender o papel da confiança entre os homens para um desenvolvimento (tecnológico, cultural, econômico) hígido e sustentável da civilização.

As fotos que ilustram o post são, coincidentemente, de autoria de Quandt e oriundas de seu perfil no Flickr.

Ainda que o portfólio de Quandt (aka Kaká) seja vasto em belas e ricas fotografias, as duas imagens aqui escolhidas foram selecionadas por sua funcionalidade temática: a primeira simboliza o mergulho entusiástico e premente que o Brasil precisa dar na inovação tecnológica e a segunda, o lugar que nos está reservado no panteão das civilizações caso continuemos a assistir o Vale a pena ver de novo de nosso crônico atraso tecnológico.

Inovação em clusters emergentes
por Carlos O. Quandt

A inovação ocupa hoje um lugar central nas discussões sobre competitividade empresarial e, cada vez mais, na formulação de políticas de desenvolvimento regional. Os motivos são claros: em estudos realizados nos países mais desenvolvidos, estima-se que a inovação é responsável por 80% a 90% do crescimento da produtividade. Sabendo-se também que o aumento da produtividade responde por mais de 80% do crescimento econômico, a inovação é essencial para ampliar as oportunidades de ganhos econômicos e sociais das cidades, regiões e países.

Com a crescente globalização econômica, os avanços tecnológicos se difundiram rapidamente, porém de forma desigual. O divisor entre os países mais desenvolvidos e os outros tende a ser definido cada vez mais pela capacidade relativa de inovar, difundir e aplicar conhecimento, deixando as dotações tradicionais de capital, recursos naturais ou mão-de-obra barata em segundo plano. Como disse Peter Drucker, “na sociedade do conhecimento… não existirão países pobres; existirão países ignorantes”. O acesso ao conhecimento tecnológico, o desenvolvimento do capital humano, a inovação contínua e a adoção de padrões mundiais de qualidade e produtividade são fatores essenciais para sustentar a competitividade.

Ao mesmo tempo, é preocupante constatar que o Brasil vem perdendo espaço no campo da inovação tecnológica, mesmo entre os países em desenvolvimento. Dados da Organização Mundial de Propriedade Intelectual (Ompi) mostram que, em meados dos anos 90, o Brasil representava 16,3% das patentes registradas por países em desenvolvimento. Atualmente, são apenas 4,2%. Os sul-africanos possuem o dobro das patentes do Brasil, e a Coréia, cerca de dez vezes mais. Reconhecidamente, nosso país investe pouco em pesquisa e desenvolvimento, principalmente por parte do setor privado. Isso é agravado pela capacidade limitada de converter o investimento em inovação, que é a introdução de novos produtos, serviços ou métodos de produção numa organização ou no mercado.

Continue a ler Inovação em clusters emergentes.

Dog house (by Kaká)
Dog house, by Kaká

* Clique aqui para ler um artigo do Embaixador J.O. de Meira Penna sobre A Sociedade de Confiança.

Ed Herman (by Irena Kittenclaw)
Ed Herman, by Irena Kittenclaw

 

País entra em campanha contra o uso da gravata
(29 de Abril de 2007)
Os costumes “ocidentais” começam a sofrer nova ofensiva no Irã. Os barbeiros e cabeleireiros de todo o país estão recebendo circulares oficiais do governo proibindo-os de servir clientes que estejam usando gravatas, segundo divulgou a imprensa local. A ordem faz parte de campanha iniciada na semana passada pelo governo do país contra vestimentas consideradas antiislâmicas. Segundo autoridades locais, aqueles que desafiarem a ordem poderão ter seus locais fechados temporariamente ou perder a licença de trabalho. Desde a revolução islâmica de 1979, o uso de gravata era visto como símbolo da decadência ocidental, mas aos poucos seu uso vinha sendo tolerado nos últimos anos. Segundo a polícia, 95% dos salões de barbeiro seguem as regras islâmicas, mas os restantes devem ser alertados de que podem ser fechados se não cumprirem as normas. A campanha estava concentrada principalmente nas roupas das mulheres, em especial para o véu que deve cobrir a cabeça. Centenas de mulheres foram presas na semana passada por não usarem o véu de forma adequada. A mulher de um diplomata estrangeiro chegou a ser detida, mas conseguiu convencer os policiais de que tinha imunidade. A polícia também proibiu o uso de maquiagem para homens, costume praticado em alguns lugares por noivos no dia do casamento. A ofensiva também tem atingido os jovens com cabelos longos e penteados “modernos”, pois são obrigados a cortá-los. E quem usa camisa de manga curta também não fica livre da repressão: recebe advertência.

134. Zur Feier des Tages... (to mark the occasion) (by assbach)
134. Zur Feier des Tages… (to mark the occasion), by assbach

Muito se tem falado a respeito dos dilemas do Irã com relação à modernidade.

Ao mesmo tempo em que o país possuiria, demografica e culturalmente, plenas condições de se laicizar e garantir maiores direitos para sua população, o reacionarismo estatal vai de vento em popa. Nos últimos anos, uma massa de estudantes pujante e latente, faminta por liberdades (e não apenas aquelas relacionadas ao consumo) vinha fermentando um caldo político e pré-revolucionário promissor, muito similar ao que precedeu o massacre de Tiananmen. Desde então, com a guinada ao poder de Mahmoud Ahmadinejad, quaisquer avanços – ainda que meramente estéticos – têm sido veementemente refreados, denotando um estado de crise.

Tudo isso é meramente sintomático de um quadro maior e mais grave (e que afeta diretamente o mundo): os Aiatolás e Mahmoud Ahmadinejad têm forçado a nota em lamentáveis episódios de tortuosa beligerância e de agressividade retórica, como tempero para uma real escalada belicista (“a bomba a qualquer custo”), que, se nada mudar, tornará inevitável um Summer in Tehran.

Sob essa ótica, a notícia acima reportada – das gravatas da discórdia – é curiosa e emblemática.

A rasteira hermenêutica anti-ocidental inoculada no episódio merece análise e – como recentes pesquisas históricas atestam – bem demonstra o absoluto surrealismo propagandístico do ativismo islâmico.

Zombie brain-eating squid. Cyberoptix TieLab (by toybreaker)

Zombie brain-eating squid, by toybreaker

Moda e o Grande Satã: De onde vem as gravatas?
A versão mais difundida como origem histórica da gravata no Ocidente seria que esta é originária da Croácia. Tratar-se ia de uma transposição fonética do francês croate para cravate. Ou bem em decorrência da pronúncia da palavra hrvat (“croata” em croata) em francês e com a substituição do “h” por um “k”, em vista da inexistência do som balcânico “hr” na língua francesa. Segundo esta versão, a moda das gravatas teria surgido na Europa durante o reinado de Louis XIII (que empregava mercenários croatas em seu exército, num regimento conhecido como “Royal-Cravate” (1664-1789).

Segundo a historiografia aceita, os guerreiros croatas tinham como hábito envergar lenços estampados (alusivos a seus clãs ou a feitos pessoais) amarrados ao redor do pescoço. Em 1635, quando de uma visita de um grande contingente de guerreiros e cavaleiros croatas (cerca de 6.000) ao Rei (episódio aparece retratado na obra La Grande Histoire de la Cravate de François Chaille), a população de Paris teria ficado enigmatizada com os ditos lenços de pescoço, rapidamente substituindo os “jabots” de renda que antes decoravam as camisas francesas.

Uma década depois, o lenço croata estava amplamente disseminado na França, especialmente na Corte, associando à moda urbana um ornamento tipicamente militar.

Silk Rainbow (by janoid)
Silk Rainbow, by janoid

O reverso da moeda: A Gravata e os Persas

Uma hipótese complementar que vem se difundindo na historiografia mundial é a de que as gravatas teriam origem iraniana (!), como se pode ver no artigo abaixo transcrito. O argumento é o de que gravata/croata é muito similar ao nome iraniano Choroatos, que por sua vez se originaria de Khoravat, palavra mencionada no Avesta como sendo “amigável”. A origem étnica dos croatas seria, inclusive, proveniente de migrações de tribos iranianas miscigenadas com grupos eslavos.


Croatians and Cravats are of Iranian Origin

By: M. A. Sepanlu, January 2002
British scholar Noel Malcom in his book “A short history of Bosnia” printed in Britain offers valuable research about the racial relationship between Iranians and some ethnicities of the former Yugoslavia. He writes: “The name Croat, or Hravat in Serbian, is not a Serbian word. It is similar to the Iranian name Choroatos, found on tombstones of Greek dwelling regions of south Russia.” He goes on to add that the original form of the word is “Khoravat” as mentioned in Avesta, meaning “friendly”.

Historical studies indicate that the Croats started migrating from the Iranian homeland to Croatia, Serbia and Bosnia about 3,000 years ago. However, a much larger migration took place about 1,700 years ago. Probably the reason behind this migration was the suppression of the followers of Manichean faith during the Sassanid era. The said scholar LSO says that the word Serb has also Iranian origin, which can be recognized in the word “Charv” meaning cattle.

According top ancient documents, these two ethnic groups were tribes of Iranian origin that had accepted Slavic subjects among themselves.

Noel Malcom says that new theories confirm historical knowledge. Some Croatian nationalist theoreticians have opted to adopt the theory linking their origins to Iran, thereby preserving their cultural and psychological independence, in order not to merge into the neighboring cultures. Such a theory gained particular popularity during World War II, for Iranians were considered to have a higher ranking compared to the Slava in terms of racial hierarchy. However, in Malcom’s words, the plain historical fact is that both the Croats and the Serbs migrated at the same time, and both have some characteristics of Iranian peoples.

One point is clear: the early immigrants called themselves Khoravat or Croat in order to distinguish with other tribes of that region. These Iranian-origin immigrants also did something more to stress the difference: they tied a handkerchief around their necks, something which later gained global popularity under the name of Cravat.

In 1656 CE, Louis XIV formed a regiment of Croat volunteers inside his army. The members of this regiment, in accordance to their ancient tradition, wore a neckerchief of plain of floral silk, its ends dangling from the tie. It could also be used as bandage if the soldier was wounded. After this time the Croatian scarf was accepted in France, above all in court, where military ornaments were much admired. The fashionable expression, ’a la croate’, soon evolved into a new French word, which still exists today: la cravate. Some 170 years later, the necktie became a universal fashion. It would be worthwhile to add that the Croatian national flag is derived from the chessboard, thus some nationalist historians consider Croatians the descendants of Bozorgmehr, the chess master and minister of the Sassanid era.

Talking of the global influence of Persian, it would also be interesting to not that the word Pajamas has Persian origins, meaning “leg ware”. My mind drifts back to the Mauritanian desert. In an isolated oasis, an old man opens an ancient book, reading with not so familiar accent, one of the great poems of Sa’adi” “Human beings are organs of one body.”

tokyo necktie (by まてぃあすMattias) tokyo necktie, by まてぃあすMattias

As Gravatas e a Glosa Islâmica
O veto às gravatas enquanto “vestuário decadente” não é universal no mundo islâmico. No entanto, está inequivocamente presente em um dos mais densos e difundidos manuais de doutrina islâmica, de autoria do Aiatolá Ali Khamenei:

Q1370: What is the view on wearing a necktie?
A: Generally speaking, it is not permissible to wear a tie, or other kinds of clothes that are considered as the attire of non-Muslims, in such a way that their wearing will promote vile Western culture. The ruling is not confined to people of the Islamic Republic.

Para os que conhecem um pouco a autocracia iraniana, o controle exercido pelos aiatolás vai muito além de simples regras de vestuário ou do que um homem põe ao redor de seu pescoço. Algumas correntes doutrinárias da República Islâmica pregam abertamente o uso, no dia-a-dia, de cores próprias para minorias ou grupos étnicos distintos e até mesmo de insígnias especiais (como o zonnar) para todos aqueles sem fé islâmica. Judeus, de acordo com os propugnadores deste código de ‘posturas’, usariam uma faixa amarela costurada na parte frontal de suas roupas (qualquer semelhança com o 3.º Reich é mera coincidência). E assim por diante, com budistas, hindus, zoroastristas e outros (com exceção de ateus e agnósticos, cuja existência é negada pela doutrina oficial).

The Captain (by lackadaisical)
Decadente? Melhor do ser chato!“.
The Captain, by lackadaisical

Gravatas seriam, na visão de certos aiatolás, um símbolo dos inefáveis cruzados e portanto, anti-islâmicas. Aqui há uma interessante explicação a respeito de como o tema é visto por iranianos moderados:


This issue goes back to the immediate aftermath of the 1979 Revolution. Before the revolution, all public figures in Iran and all officials wore ties, both domestically and when on visits abroad. Shortly after the revolution however, the tie itself began being associated with “Western imperialism”, especially after
Ayatollah Khomeini branded a large group of intellectuals (who were less religiously zealous than he would have liked) as “tie-wearing cronies of the West” and essentially branded anyone wearing a tie as being Western influenced. As such, no Iranian official since that time wears a tie, whether in Iran or when on official trips abroad. In fact, for many years after the revolution, the site of a regular person wearing a tie in Iran was so rare that heads would turn on the street and funny comments would be made if someone wore a tie outside. Many people still wore them to parties and weddings and things, but it was very “taboo” during the 1980s.

Gradually, as Khomeini’s legacy became a bit less overbearing, regular people stopped caring and the rhetorical plays on people who wear ties as “imperialist cronies” were no longer made, meaning that at least ordinary people now wore ties on a regular basis. I myself for example, always wore tie at work in Tehran, as did many of my colleagues. I would actually make a point of wearing a tie outside as much as possible, to do my bit in making sure that people got used to seeing other people in ties.

On the official side however, wearing a tie is still a no-no and it would be unthinkable for Ahmadinejad, who claims to be one of the “true disciples of Khomeini” to sport a neck-tie under any circumstances.

Interestingly however, many of the children of regime officials wear ties in addition to having outlandish dress and hairstyles in general (which are often criticised by the hardliner newspapers), without their parents having any real control over it.

Considerando os perigos geopolíticos de Ahmadinejad e sua claque de aiatolás, pode até parecer frívolo discutir assuntos de moda relacionados ao islamismo.

No entanto, estas facetas do problema bem revelam – e de forma anedótica – os perigos da teocracia para as liberdades individuais, em esferas tão banais quanto o vestuário.
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winston
“Enough of this ridiculous appeasement“.

* Para entender um pouco mais o que se passa atualmente no Irã e no restante do Islã ativista, um autor fundamental é Daniel Pipes (filho do historiador Richard Pipes), que mantém uma página constantemente atualizada e uma newsletter muito dinamica sobre assuntos atuais do mundo árabe.

* Este post em Hackeando Catatau é uma bela exposição de imagens da Croácia, tributo da visita de Kruno e Tanja à mostra ConSerto.

são francisco de assis, desterro (by Mathieu Struck)

No imaginário popular, Florianópolis é habitualmente associada a suas aprazíveis e movimentadas praias. O centro da cidade, no entanto, também é digno de atenção por parte dos visitantes e revela, em suas muitas ruas e vielas (repletas de antigos casarões, sobrados e igrejas), a riqueza histórica da Ilha de Santa Catarina, antiga Nossa Senhora do Desterro.

centro de floripa (by Mathieu Struck)

Em um passeio pelas cercanias do Mercado Municipal não é incomum escutar rodas de conversa de legítimos açorianos discutindo a possibilidade de resgate do nome original, em detrimento do toponímico atual, oriundo de um banho de sangue capitaneado pelo brazilian gorilla Floriano Peixoto. E sob uma certa lógica histórica (situada muito além do pragmatismo raso dos escritórios de turismo), o nome Florianópolis é tão sintomático das mazelas do culto à tirania quanto Stalingrado ou Leningrado. A mudança do nome possivelmente continuará a ser o que é – nada mais que nostálgicas conversas de praça – mas mesmo assim traduz uma perspectiva poética.

fragment of sky (by Mathieu Struck)

Um pouco além das imagens apresentadas neste post (fruto de uma tarde fotográfica fugaz na cidade em 2006, caoticamente entremeada por trabalhos judiciais não tão relaxantes), vale a pena conferir o trabalho da fotógrafa Renata Diem (este é o link direto do seu set sobre a cidade).

fly by wire (by Mathieu Struck)

Photos: Mathieu Bertrand Struck
creative-commons_iconLicensed under CC-BY-NC-ND 2.0

borges


La Luna

(Jorge Luis Borges)
Cuenta la historia que en aquel pasado
Tiempo en que sucedieron tantas cosas
Reales, imaginarias y dudosas,
Un hombre concibió el desmesurado

Proyecto de descifrar el universo.
En un libro y con ímpetu infinito
Erigió el alto y arduo manuscrito
Y limó y declamó el último verso.

Gracias iba a rendir a la fortuna
Cuando al alzar los ojos vio un bruñido
Disco en el aire y comprendió, aturdido,
Que se había olvidado de la luna.

La historia que he narrado aunque fingida
Bien puede figurar el maleficio
De cuantos ejercemos el oficio
De cambiar en palabras nuestra vida.

Siempre se pierde lo esencial. Es una
Ley de toda palabra sobre el numen.
No la sabrá eludir este resumen
De mi largo comercio con la luna.

No sé dónde la vi por vez primera,
Si en el cielo anterior de la doctrina
Del griego o en la tarde que declina
Sobre el patio del pozo y de la higuera.

Según se sabe, esta mudable vida
Puede, entre tantas cosas, ser muy bella
Y hubo así alguna tarde en que con ella
Te miramos, oh luna compartida.

Más que las lunas de la noche puedo
Recordar las del verso: la hechizada
Dragon moon que da horror a la balada
Y la luna sangrienta de Quevedo.

De otra luna de sangre y de escarlata
Habló Juan en su libro de feroces
Prodigios y de júbilos atroces;
Otras más claras lunas hay de plata.

Pitágoras con sangre (narra una
Tradición) escribía en un espejo
Y los hombres leían el reflejo
En aquel otro espejo que es la luna.

De hierro hay una selva donde mora
El alto lobo cuya extraña suerte
Es derribar la luna y darle muerte
Cuando enrojezca el mar la última aurora.

(Esto el Norte profético lo sabe
Y también que ese día los abiertos
Mares del mundo infestará la nave
Que se hace con las uñas de los muertos.)

Cuando, en Ginebra o Zürich, la fortuna
Quiso que yo también fuera poeta,
Me impuse, como todos, la secreta
Obligación de definir la luna.

Con una suerte de estudiosa pena
Agotaba modestas variaciones,
Bajo el vivo temor de que Lugones
Ya hubiera usado el ámbar o la arena.

De lejano marfil, de humo, de fría
Nieve fueron las lunas que alumbraron
Versos que ciertamente no lograron
El arduo honor de la tipografía.

Pensaba que el poeta es aquel hombre
Que, como el rojo Adán del Paraíso,
Impone a cada cosa su preciso
Y verdadero y no sabido nombre.

Ariosto me enseñó que en la dudosa
Luna moran los sueños, lo inasible,
El tiempo que se pierde, lo posible
O lo imposible, que es la misma cosa.

De la Diana triforme Apolodoro
Me dejó divisar la sombra mágica;
Hugo me dio una hoz que era de oro,
Y un irlandés, su negra luna trágica.

Y, mientras yo sondeaba aquella mina
De las lunas de la mitología,
Ahí estaba, a la vuelta de la esquina,
la luna celestial de cada día.

Sé que entre todas las palabras, una
Hay para recordarla o figurarla.
El secreto, a mi ver, está en usarla
Con humildad. Es la palabra luna.

Yo no me atrevo a macular su pura
Aparición con una imagen vana;
La veo indescifrable y cotidiana
Y más allá de mi literatura.

Sé que la luna o la palabra luna
Es una letra que fue creada para
La compleja escritura de esa rara
Cosa que somos, numerosa y una.

Es uno de los símbolos que al hombre
Da el hado o el azar para que un día
De exaltación gloriosa o de agonía
Pueda escribir su verdadero nombre.

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Mare Nectaris, 15.2S Lat, 35.5E Long, 333 km diam.

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Karl Blossfeldt (1865-1932) foi um fotógrafo e escultor berlinense que se notabilizou pelas suas detalhadas fotografias botânicas em preto e branco. Ele criava suas próprias máquinas fotográficas e, com elas, lograva obter capturas extremamente próximas, detalhadas e nítidas, impensáveis para a época.

Suas fotografias de plantas são um exemplo eloqüente do tênue limiar existente, em alguns casos, entre a fotografia puramente descritiva e o abstracionismo artístico. Algumas das formas botânicas por ele reveladas podem ser alegorica e poeticamente enxergadas como formas de puro design, até mesmo de cunho metalúrgico e arquitetônico.

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Uma das obras mais notáveis de Blossfeldt é Urformen der Kunst (Archetypes of Art), de 1928, que recebeu entusiásticas respostas de círculos literários e do público. Algumas imagens deste post são do livro mencionado. A consagração artística de Blossfeldt incluiu exposições na Bauhaus, em Dessau e parceria com escritores, como George Bataille.

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É possível estabelecer um paralelo aproximado entre a obra de Blossfeldt e a do fotógrafo americano Wilson Bentley (cujas criações são praticamente do mesmo período – primeira metade do século XX) e que explorava fotograficamente as formas abstratas de flocos de neve e dos cristais de gelo. No entanto, o trabalho de Blossfeldt, conceitualmente, é visivelmente mais sólido do que o de Bentley e transcende claramente a mera reprodução técnica das figuras botânicas por ele retratadas, resultando numa reflexão sobre a própria forma, a estrutura e a harmonia.

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